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5.7.10

O sol pelo correio...



Aos amigos

"Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder por toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão."

LUGAR, Poesia Toda, Herberto Helder












































































... a minha surpresa pelo correio vem recheada de cheiro a África mas foi o vento Ribatejano que a trouxe!
Obrigada, queridos Andantes!

22.6.10

As Flores do ...



"(...)Na tua carne o perfume
Paira como num incensório;
Encantas como o crepúsculo,
Ninfa quente e tenebrosa.

(...)"

Charles Baudelaire, Canção da Tarde, Spleen e Ideal, As Flores do Mal, 1855



























































De manhã, em menos de meia hora, a flor dos "rabos de macaco" desabrochou... e à noite estava morta.

22.4.10

Um saco azul para o planeta azul







Para comemorar o dia da Terra, um saco que evite desperdício dos de plástico! Este foi feito a partir de um Patchwork que não tinha destino, aproveitando outros tecidos que já tinha. A diversidade dos tecidos (ainda que todos de algodão) serve o propósito do reaproveitamento, o da reciclagem e é, ainda, uma pequena homenagem à diversidade da Terra. O saco é forrado e tem, no seu interior, um bolso (de umas calças de ganga desaproveitadas). Com as sobras acrescentei uma carteira para os trocos, com uma pequena alça.
Vai, a seguir para a Loja.

E, porque hoje é o dia da Terra:

AS DUAS MÃOS DA TERRA

Eu procurei e era vapor ou sonho
e era o mundo, o rumor do estio
com os seus barcos de folhagem entre as pedras
e o sol por sobre os muros, a linguagem
dos gestos quase imóveis no ardor
monótono e sombrio de uma brancura
que vencia o tempo e era o ombro
e o seio da terra entre o verde e a cinza.
Eu procurava e recebia o sopro
de um fogo em labirintos áridos
e a violência reunia-se num flanco
vermelho, companheira
que ardia adormecida e se elevava
sem sobressaltos à nudez do cimo.
Era como se a terra amasse o sonho
e com a mão de fogo e a mão de água
desenhasse o instante da primeira
alegria divina. Eu recebia
as formas que se abriam e encerravam
em círculos vagarosos de uma matéria pura.

As Duas Mãos da Terra, Acordes, 1989, António Ramos Rosa

8.3.10

Dia internacional da Mulher


Audrey Hepburn, Breakfast at Tiffany's, Blake Edwards, 1961


Josette Day, La Belle et la Bête, Jean Cocteau, 1946


É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele com um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conhecia o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

António Ramos Rosa, É por ti que escrevo que não és musa nem deusa, O teu Rosto, 1994

Por todas as mulheres do Mundo...

23.2.10

4 Peixes


#1

#2

#3

#4

Fundo do Mar

No fundo do mar há brancos pavores
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


Sophia de Mello Breyner Andresen

19.2.10

Pussy-cat

"Pussy-cat, pussy-cat, where have you been?
I've been up to London to look at the queen.
Pussy-cat, pussy-cat, what did you there?
I frighten'd a little mouse under a chair."

Mother Goose, Old Nursery Rhimes









Bolsa para lápis, em sarja grossa estampada, forrada a tecido de algodão castanho; tem dois gatos (comprados na retrosaria local) aplicados a Ponto de Festão separado e bordado a Ponto de Cadeia e Ponto atrás. O puxador do fecho tem uma conta de madeira pendurada em tecido de cambraia riscado.

11.2.10

L'amour



"(...)
Est-ce là l'amour cette promesse qui nous dépasse
Ce billet d'aller et retour éternel établi sur le modèle de la phalène chinée
Est-ce l'amour ces doigts qui pressent la cosse du brouillard
Pour qu'en jaillissent les villes inconnues aux portes hélas éblouissantes
L'amour ces fils télégraphiques qui font de la lumière insatiable un brillant sans cesse qui se rouve
De la taille même de notre compartiment de la nuit
(...)"

Fata Morgana, Poèmes, Andre Breton, 1939









Corações de Linho, bordados a linha de algodão em Ponto de Cadeia, debruados a Ponto de Festão separado; tem um pequeno quadrado recortado de chita com padrão floral, aposto a Ponto de Festão separado e encimado por laço de cetim. Os corações medem, aproximadamente, 13 cm e podem ser pendurados pela pequena argola de madeira presa por cordão de Crochet (na mesma linha com que foram debruados) ao topo de cada um, que é amovível.
Estes dois vão passear até (à Vila de) Olhão (da Restauração)!

10.2.10

------Love--- adrift---------







Pins em Pano Crú bordado a Ponto de Cadeia e Ponto Atrás com linha de algodão.




"Over the mountains
And over the waves,
Under the fountains
And under the graves;
Under floods that are deepest,
Which Neptune obey,
Over rocks that are steepest
Love will find out the way.
(...)"

Anonymous; Ballads, Songs, Carols, English Verse, Campion to Ballads, vol.II, 1967

6.1.10

Dia de Reis



Poema do Fecho Éclair

Filipe II tinha um colar de oiro,
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco,
e a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da terra,
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safiras, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo,
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.

Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho éclair.

António Gedeão, Poemas Escolhidos, Edições João Sá da Costa, 10.ª edição, 2006

Bom dia de Reis!

14.9.09

O primeiro dia


A primeira ida à escola ...

Aprender a estudar

Estudar não é só ler livros
que há nas escolas
é também aprender a ser livre
sem ideias tolas.
Ler um livro é muito importante
às vezes urgente.
Mas os livros não são o bastante
para a gente ser gente.
É preciso aprender a escrever
mas também a viver
mas também a sonhar.
É preciso aprender a crescer
aprender a estudar.

Estudar também é repartir
também é saber dar.

José Carlos Ary dos Santos

28.7.09

Arábes



140

Mais uma aurora!
Como, a cada manhã, eu descubro o esplendor do mundo
e aflijo-me por não poder agradecer ao seu criador.
Mas tantas rosas me consolam, tantos lábios se oferecem aos meus!
Deixa o teu alaúde, ó minha bem-amada, já que os pássaros começam a cantar.

Rubayat, Odes ao vinho, Omar Kahayyam, sec. XII

22.6.09

Verão


Primeiro dia de Verão, primeiro dia de praia (nunca tínhamos começado a temporada de praia tão tarde como este ano...).Quatro horas de puro deleite!

"(...)
I see the summer children in their mothers
Split up the brawned womb's weathers,
Divide the night and day with fairy thumbs;
There in the deep with quartered shades
Of sun and moon they paint their dams
As sunlight the shelling of their heads.
(...)"

I See the summer boys of summer, I, 1934, Dylan Thomas Poetry, Dylan Thomas

17.4.09

Retrato



Retrato em Ponto Cruz sobre linho, em tons de rosa.


geometria
rumo incerto
alegre e triste alegria
sempre mais perto

força fria
mãe do dia
regaço puro e coberto

dom breve
silhueta esguia

catapulta no deserto

Mário Cesariny, Retrato, Manual de Prestidigitação

24.3.09

Saco Japonês


Saco de alça dupla, com fecho de correr, em tecido de algodão verde marinho, lilás e rosa e seda japonesa estampada.

E um Haiku para condizer:

Pirilampos
Sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz

Herberto Helder, Quinze Haikus Japoneses, O Bebedor Nocturno, poemas mudados para português, Poesia Toda, 1996

21.3.09

Poesia



[xvii]

in time of daffodils (who know
the goal of living is to grow)
forgetting why, remember how

in time of lilacs who proclaim
the aim of waking is to dream,
remember so (forgetting seem)

in time of roses (who amaze
our now and here paradise)
forgetting if, remember yes

in time of all sweet things beyond
whatever mind may comprehend,
remember seek (forgetting find)

and in a mystery to be
(when time from time shell set us free)
forgetting me, remember me


e.e. cummings, xix poems

20.3.09

Sweet Spring, thou turn'st



"Sweet Spring, thou turn'st with all thy goodly train,
thy head with flames, thy mantle bright with flow'rs:
The zephyrs curl the green locks of the plain,
The clouds for joy in pearls weep down their show'rs.
(...)"

William Drummond of Hawthornden, 1585-1649, English Verse, volume II, Chosen and edited by W. Peacock


Chegou a Primavera!


20.2.09

Vestida de flor...II


A Cuca com a sua fantasia já pronta... na escolinha colocará a máscara de borboleta que foi lá confeccionada... e vão todos desfilar pela cidade!!


Mistérios da Escrita

Escrevi a palavra flor.
Um girassol nasceu
no deserto de papel.
Era um girassol
como é um girassol.
Endireitou o caule,
sacudiu as pétalas
e perfumou o ar.
Voltou a cabeça
à procura do Sol
e deixou cair dois grãos de pólen
sobre a mesa.
Depois cresceu até ficar
com a ponta de uma pétala
fora da Natureza.

Álvaro Magalhães

6.2.09

Como um jogo


Jogo

Abro a caixa do inverno. Tiro os ventos,
as rajadas de chuva, os bancos de neve de onde
fugiram todos os pássaros. Desenrolo à minha
frente os pântanos do inverno. Ando à volta
deles para desentorpecer as pernas; sacudo
o frio das mãos; limpo a chuva que se me colou
aos cabelos. Depois volto a lançar os dados
-e avanço até à primavera.

Nuno Júdice